Quando o estresse virou sinal de pertencimento?

Se alguém nos pergunta como estamos, é quase automático responder: “na correria”.


Eu mesma já vivi nesse lugar e talvez você também reconheça essa sensação: agenda cheia, demandas acumuladas, mensagens que não param e a impressão de que tudo precisa de nós para continuar andando.


Mas tenho pensado sobre: e se dermos uma resposta diferente?
Quando todo mundo parece estressado, por que soa estranho não estar no mesmo ritmo?


Outro dia, uma mentorada comentou: “Nossa, eu me senti mais relaxada no momento que estava todo mundo estressado e achei que tinha alguma coisa errada comigo.”


E eu mesma já senti isso quando atuava no mundo corporativo. Lembro de momentos em que o time estava estressado porque teríamos uma visita internacional, uma apresentação, uma reunião importante, mas eu não estava me sentindo igual.


Aí vem aquele pensamento: “Eu que devo estar perdendo alguma coisa, né? Porque eu devia estar estressada como todo mundo…”


Sei que, muitas vezes, a correria é real. Vivemos em ritmos exigentes, especialmente em ambientes de liderança, negócios e alta responsabilidade.


Mas será que também não nos colocamos nesse lugar porque normalizamos a sobrecarga?


Será que, em algum ponto, estar ocupado virou uma forma de provar valor?


E será que não começamos a sentir culpa quando não estamos estressados o suficiente?


Eu, vocês, nós, eles: todos estressados


O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, aponta que 40% dos
profissionais no mundo relataram ter sentido muito estresse no dia anterior. O mesmo estudo mostra que emoções negativas, como estresse, tristeza e raiva, seguem acima dos níveis anteriores à pandemia.


Ou seja, não estamos falando apenas de uma percepção individual. Existe algo coletivo acontecendo. Talvez por isso, em alguns ambientes, estar estressado tenha se tornado quase uma senha de pertencimento.

  • Se todo mundo está correndo, eu também preciso correr. 
  • Se todo mundo está reclamando da agenda, eu também preciso mostrar que a minha está impossível. 
  • Se todo mundo parece no limite, talvez a minha calma pareça inadequada.


O problema é que, quando isso vira cultura, começamos a confundir presença com tensão. E presença, para mim, tem muito mais a ver com inteireza do que com esgotamento.


A armadilha da agenda cheia


Eu já vivi o lugar do “sem tempo, sem tempo, sem tempo” e acho que existe uma armadilha muito silenciosa nisso.


Quando fazemos parte de uma empresa, de uma equipe ou de uma cultura em que todo mundo está sempre correndo, é difícil destoar. A gente entra no ritmo, assume mais uma demanda, encaixa mais uma reunião, responde mais uma mensagem e, quando percebe, já está funcionando no automático.


E existe também um lado mais sutil. Quanto mais ocupada está a nossa agenda, mais uma parte do nosso ego pode se sentir importante. Não porque sejamos pessoas egocêntricas, mas porque o próprio sistema reforça essa lógica: agenda cheia parece sinônimo de relevância, disponibilidade parece sinônimo de comprometimento e cansaço parece prova de entrega.


É como se a quantidade de compromissos confirmasse o nosso valor. Como se tudo precisasse de nós para continuar andando.


Mas, quando conseguimos olhar com um pouco mais de distância, percebemos algo difícil e libertador ao mesmo tempo: as coisas seguem. A empresa segue, os projetos seguem, a vida segue. Estejamos nós ali ou não.


Isso não diminui a nossa contribuição. Também não significa descaso, irresponsabilidade ou falta de compromisso. Significa apenas que talvez a nossa identidade não precise estar tão grudada na ideia de sermos indispensáveis.


Porque existe uma diferença grande entre ser comprometido com o que fazemos e estar capturado por uma cultura que transforma ocupação em medida de valor.


Estamos correndo para onde?


É fato que estamos o tempo todo correndo. 


Correndo para entregar mais, responder mais rápido, assumir mais responsabilidades, ocupar mais espaços e preencher qualquer espaço vazio da agenda.


Mas, às vezes, me pergunto: correndo para onde?


Porque a correria, por si só, não diz muita coisa. Ela pode até dar a sensação de movimento, mas movimento não é necessariamente direção.


A questão é: temos clareza do que estamos tentando construir?

Na carreira é muito fácil entrar em um fluxo de metas, entregas, reconhecimento, crescimento e novas responsabilidades. Tudo isso pode fazer sentido, mas também pode nos afastar de uma reflexão mais simples e mais profunda: o que realmente importa para mim nesta fase?


Quando essa resposta não está clara, qualquer urgência parece prioridade, qualquer convite parece oportunidade e qualquer demanda parece inadiável.


Aos poucos, vamos correndo muito sem perceber se estamos indo para um lugar que conversa com os nossos desejos, valores e escolhas.


Com mais clareza, talvez a gente perceba que nem sempre precisa correr tanto assim. É quando começamos a escolher melhor onde colocar energia, presença e tempo.


O tempo é questão central


A coisa mais valiosa que temos é o tempo. E, ao mesmo tempo, nunca sabemos exatamente qual é o tempo real que temos.


Sêneca escreveu algo muito bonito sobre isso: “Não temos pouco tempo, mas perdemos muito.” 


Acho essa frase boa porque ela desloca a pergunta: o ponto não é ter mais tempo, mas perceber para onde o nosso tempo está indo.

  • O que estamos alimentando com a nossa presença? 
  • O que estamos deixando de viver porque estamos sempre ocupados demais? 
  • O que a nossa agenda revela sobre as nossas escolhas? 
  • E o que ela talvez esconda?


Tenho pensado nisso também quando escuto tantas conversas sobre tecnologia e inteligência artificial. A promessa, muitas vezes, é de que vamos ganhar tempo. Automatizar tarefas, acelerar processos, produzir mais rápido, eliminar etapas.


E, de fato, muita coisa fica mais ágil.


Mas me pergunto: para onde vai o tempo que supostamente ganhamos?


Porque essa não é a primeira tecnologia que chega com essa promessa. Nas últimas décadas, muitas ferramentas surgiram para tornar a vida mais prática, rápida e eficiente. Ainda assim, não tenho a sensação de que estamos vivendo com mais tempo disponível.


Pelo contrário. Muitas vezes, quando uma tarefa fica mais rápida, simplesmente abrimos espaço para colocar outra no lugar.


A tecnologia acelera, mas, se não houver consciência, a nossa vida acelera junto.


Quando penso nisso, lembro das obras que vi em uma viagem recente para Portugal e Espanha. Algumas levaram décadas, outras séculos para serem construídas – vide a Sagrada Família que está em construção desde 1882. E perceba quão visionário era Gaudí, que dedicou grande parte da sua vida a uma obra que não veria concluída. Havia ali outra relação com o tempo, com o processo e com a permanência.


Isso me fez pensar no quanto estamos desacostumados a esperar, maturar, observar e deixar que algumas respostas venham com o tempo. Queremos acelerar quase tudo. Mas nem tudo que importa nasce nesse ritmo.


Algumas perguntas para começar


Não tenho respostas fechadas sobre isso. Mas tenho acreditado cada vez mais na importância de criar pausas de observação. Pequenas brechas para olhar a própria vida com um pouco mais de distância.

Talvez algumas perguntas ajudem nesse começo:

  • O que, hoje, está ocupando espaço demais na minha agenda? 
  • Essa correria está me levando para um lugar que faz sentido? 
  • O que me devolve vitalidade, e não apenas alívio momentâneo?


Também tenho pensado em perguntas mais incômodas: 

  • Eu sei descansar sem culpa? 
  • Consigo estar comprometida sem estar permanentemente esgotada? 
  • Quem sou eu quando não estou ocupada?


Sugiro essas perguntas como convite, porque a vida profissional não precisa ser medida apenas pelo quanto aguentamos, mas pelo quanto conseguimos estar presentes no que escolhemos viver.


E estar calmo não significa estar desatento.


Pode significar apenas que, finalmente, conseguimos sair um pouco da roda.

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